quarta-feira, 3 de outubro de 2012


Tá chovendo. A pessoa, sem guarda-chuva, tem que pegar dois ônibus pra chegar em casa. Beleza. Engarrafamento infernal, uma hora e meia no trânsito. Eu penso numa música de Dead Fish que eu curtia (curto, ok): "se tempo é dinheiro, por que a lentidão?". A estética da frase ou da música me dá agonia e me forço a pensar na expressão "direitos urbanos". Altas referências e coisas na minha cabeça, uma raiva por dentro a caminho de Boa Viagem, mas poderia ser o centro. Penso no porque de ser Boa Viagem. Penso no porque de eu me acomodar nessa moldurinha escrota de trabalhadora, gente de bem, apressada, agnóstica, lendo um livro, insatisfeita, mas hipócrita. Eu nem tô fazendo nada em relação à ditadura do carro. Só acho tudo muito ruim e faço trocadilhos cretinos.

O solavanco do ônibus sai de mim e vira à direita. Por que direita, meu deus? Vou pegar mais chuva ainda. Tento me consolar pensando em Meia noite em Paris ou em "God is in the rain". A rua é muito estreita e está tudo parado por conta de um colégio que mais parece um empresarial. Pensar nesse negócio de mercado da educação me dá um daqueles desesperos de três segundos - passa quando vejo um menino branquelo e desajeitado na calçada. 17 anos, no máximo, mas a confusão dos movimentos do corpo me atrai. Sinto que ele me encara mesmo com o vidro que eu imaginava ser daqueles com película anticontatohumano. Me sinto bem com a ilusão do olhar, o barato e a resistência de ser ser humano. Mas também me sinto uma mistura nojentinha de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, e então controlo meus impulsos jegues e introspectivos.

Eu paro, o ônibus para, e Deus não está por aqui ou por lá. Minha farda é branca e eu lembro da música "Água", de Sheila Melo. Me dá um semi-medo engraçado de um possível estuprador: mais exposta impossível. As vezes fico pensando que tarado fareja fragilidade, enquanto eu exalo. Deve ser, sei lá. Fragilidade pra depois de blusa branca na chuva, meu cabelo frágil, minhas mãos, meus movimentos travados pela vaidade. Genta travada é gente frágil, acredite. Eu pensando nisso e esbarro num cara na portaria de um prédio. Pareceu de propósito, uma merda.

Esbarrar, homem, paquerinha, os boy da vida. "Não, Emanuele, mulher não insiste, isso não se faz. Mas por que não vomitar vontade?" Esse negócio de pensar como agir com macho me dá tanta agonia que atravesso a rua ao meio sem nem notar que não tem como ir pra Conselheiro Aguiar sem uma aguinha na canela. Digo um "puta que pariu", e uma mulher, no sinal, dentro de um carro, ri. Realmente espero que, como eu, a moça tenha pensado que poderíamos ter trocado mais do que um "puta que pariu" se ela não estivesse dentro da cápsula estranha que é um automóvel.

Uma outra, sem carro e com guarda-chuva, olha pra mim com pena e reprovação pelo palavrão. Chega a me dar uma mini repulsa aqueles cabelos de crente puxados para trás, quase que como um sorriso penteado com cuidado para uma entrevista de emprego. Ela pergunta calmamente se eu tinha passado pela rua alagada. Digo que não, e ela comenta do muro cheio de baratas. Depois, olha para a minha perna e aponta para uma, duas, três. É, barata. Limpeza. Não tenho cunhão para morder e curtir a epifania branca e cremosa, mas pelo menos não grito. Dei petelecos elegante, mas não pude evitar a epifania - ou um pensamento escroto mesmo: "por que fico me controlando? E se a mulher senso comum for real em mim?" Mas que inferno isso de até onde vai a coerção, o controle, a interdição, a vontade de verdade.

E que inferno não saber para onde ir. Corro para o outro lado da rua com o peso na consciência de não ter dado "tchau" para a minha colega crente. Grito desengonçada e ela sequer responde. E é claro que eu penso na falta de disposição das pessoas em promover encontros casuais e válidos - sempre penso nisso. As vezes sou muito prepotente e pretensiosa, do tipo que tem ideologia e é panfletária.

Me consolando da desgraça de mim mesma, encontro uma rua semi-alagada por onde é possível passar. Uma boa metáfora pra minha situação atual. Vejo meu prédio azul e branco; vejo Robson, da banca de revista, que me carregava lado a outro da pista pra eu comprar bombom. Robson está viúvo e eu percebo que meu prédio de quatro andares é quase caixão. Isso tudo não me cabe mais, até as ruas da cidade não me cabem. Não que eu seja grande. Ok, isso tudo não me ENCAIXA mais. Melhor assim?

Corro desajeitada até o outro lado da calçada, abro as grades e me fecho no prédio e na rotina. Só faltava o carro.


Agosto/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Resenha do filme Albert Nobbs


 Meu nome é Albert. Não sei mais o que dizer. Venho me acostumando a não sistematizar meus processos, afinal o que importa é o produto. O que importa é não ser violada pelos homens ou pela fome.  Aprendi, em poucos anos, que servir me protege do ataque; para estar salvo, é preciso apenas aparar as curvas do corpo e do comportamento, de forma que estes estejam de acordo com algo que não compreendo, mas aceito. 

Desculpe, me sinto interrompida como um coito de mulher seca demais para a penetração. Meus vislumbres de frases parecem estar sendo sugados assim como ocorreu às minhas bochechas femininas. Talvez o mundo dos homens tenha me deixado enxuta demais. Hoje eu não consigo sorrir.  Aliás, consigo. Dia desses achei graça de um garçom com olho roxo. Talvez vingança, mas não importa. O que importa é não ser violada pelos homens ou pela fome.

Todos os dias me travisto do que esperam em mim e, embora um susto sereno ainda me assalte, me uso como espelho para que o monstro se reconheça na sua, agora minha, monstruosidade e, assim, ao menos me ignore. É doce a minha ilusão de felicidade ao ser ignorada. Me desculpem o açúcar do termo, a feminilidade vem me tentando a ponto de eu compreender a ilusão sem aceitá-la.

 Preciso de um parágrafo. Acho que houve, aqui, uma revira sem volta. As mulheres me cochicham: é preciso alarde para ser. É preciso vestido, colo, amor. É preciso um processo feminino diário. É preciso alarde.  A fome e os homens também nos violam com a indiferença. É preciso alarde.

Sem mais reparos nas curvas do corpo ou do comportamento, aprensento-lhes meus seios com toda a sua miséria, mas apresento-lhes meus seios.


Junho/2012

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Amor


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Um dia estava pulsando demais. A menina ressentia o sexo com uma aflição familiar. Havia um arrepio entre desejo e agonia, o que dava a ela uma ansiedade pantanosa: sorria com lágrimas da última noite. Talvez porque, de alguma forma, a submissão lhe acolhia. Relembrando os movimentos bruscos que lhe causaram dor, a menina se sentia objeto – de amor e desejo. Isso lhe proporcionava um prazer descritível: “antes ser aceita do que compreendida”, sentiu. Submeter-se ao mundo era a condição dolorosa de ser acolhida, o que, a princípio, era a sua prioridade. Valia a pena.
Ainda inquieta, a menina se encarregou a um banho. Sentindo que o sabonete a descascava, a sensação primeira foi de alívio. Esfregou para além do corpo com mais vontade e força, e acabou por se sangrar, experimentando um misto de libertação e pavor de si. O arrepio tornou com toda a sua contradição, e a vasta experiência de mulher insistiu em se rir do corpo destreinado e seco por medo de masturbação. O grito do gozo encenado ressoava no coração da menina que não mais se reconhecia como mulher livre. Que não mais se reconhecia como mulher. Que não mais se reconhecia.
Ao perceber que seu corpo havia sido escravizado também por seu próprio ideal de mulher que forçosamente se impôs, a menina se tocou com uma sinceridade inédita, descobrindo-se costurada. Não lhe cabendo o vestido com as medidas ideais de mulher livre, ela se permitiu alfinetar e moldar a própria pele. Vestido e corpo confundiam-se numa dor insuportável para agradar um mundo intolerante do qual a menina também fazia parte.  Menina e mundo se entranhavam estranhamente.
Aumentando ainda mais a temperatura da água, a menina se esfregou com ainda mais força, descosturando todos os seus pontos de cruz e sacrifício. Assim, desnuda de arquétipos e com a força das pupilas que insistem em encarar o sol do meio dia, começou a lamber suas feridas descascadas em carne viva. A dor de um parto. Finalmente sentiu, enojada, o sabor de si. Com sua identidade amargando entre os dentes, teve medo de ser frustrada e só. Antes não ser?
Ainda nua, mirou-se no espelho, surpreendendo-se com as marcas da farsa em seu corpo: as cicatrizes eram parte de uma verdade. A mulher acariciou suas feridas com respeito, reconhecendo-se sujeito – de amor e desejo.

Outubro/2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Sobre exposição e nãos



Conheci um menino que parecia gostar de teatro e lutas de cavalaria. Uma das minhas armaduras agradou bastante. Quanto maior o preço, mais ele se interessava por toda aquela cortina de ferro. Foi bonito perceber a vontade, o interesse cuidadoso em se realizar com algo que eu tinha. Tão bonito que resolvi convidá-lo para mais uma exposição.
A máscara já me exibia, e o menino cambaleava por vezes: com uma frase ou outra ia além do que pretendia. Essa sensação de mistério e obstáculo nos impunha a necessidade do amanhã, de forma que mais uma vez marcamos de nos apreciar. Novamente fui com a armadura já tão bem recepcionada, para garantir a impossibilidade de qualquer desgosto. Mal pude perceber que já não bastava, afinal o alumbramento tem um tanto a ver com o inesperado. No mais, band-aid não cura ferida. Há momento em que o recheio se impõe em calda.
Pois bem. Larguei máscara, armadura, teatro e luta de mim. Era tanta exposição prum menino. E um menino tão prático: apenas com sorrisos no bolso pra comprar um pré-frabricado. Ele não entendia nada das formas, das partes, das próprias legendas. Ele mal queria ler as legendas. Ele não queria ler as legendas. Como despertar interesse pelo desconhecido e esquisito? Como permanecer o outro em mim? Mais o guia vomitava, mais o menino se indeferenciava, mais o guia vomitava. Tanta exposição que a ausência de mistério e obstáculo sumiu com a possibilidade de nos amanhecer.
O menino foi embora. Talvez expulso pelo o que não conseguiu apreciar. Talvez expulso pelo o que não pôde apreciar. Talvez expulso pelo o que simplesmente não quis. O fato é que se retirou apressado: o silêncio é o pior dos nãos.
Em mim, um broto atrofia. Pois que não há teatro, não há luta, não há guia, não há exposição – mesmo de armadura. Que resista sem público. Que resista sem menino. O salão está vazio, repleto de um aguardo aflito. Até que o dia em que eu feche as portas e não haja mais exposição.


Junho/2011

sábado, 27 de março de 2010

Tinha uma apresentação de dança, um palco. Era um festival. Mas nem se me interessava. Só queria correr até mim, e conversar.

"Pernambuco é só trabalho e carro", disse. Queria ir embora. E estava perdida.

Concordamos, sem muita discussão, que seria melhor procurar o inimigo do qual havia fugido. Isso porque ter o que combater já é um rumo, um se encontrar. Ir embora é coisa séria, se expandir é perigoso. O horizonte é escuro.

E é por isso que estava voltando atrás. Bem atrás.

Logo soubemos que estavam a me caçar Cecília. Eu me deixei Cecília em um lugar, como que um quiósque, e fui procurar e encontrar o inimigo que oferecia rumo. Me entreguei Cecília. Achava necessário.

Voltando, não parava de soluçar. Num carro.

Depois... depois fui me visitar Cecília. Parecia bem. Parecia. Até vi um caderno em que contava muitas felicidades, todas bem ilustradas e coloridas.

Entre tanto:
"A tristeza a envolveu" num papel amarelado.

Era a última folha de uma história com letra e desenhos de criança.

O beco definitivamente não lhe me bastava. Combater era rumo meramente destrutivo. Caos sem depois. Só se sabia das negativas, do não. Mas e o sim?

Queria querer, mas apenas não queria. E ficava aflita com isso. Desejava saber o que desejava. Precisava construir. No entanto, tinha medo de abandonar novamente o inimigo. Havia o risco de se perder. O horizonte é enorme.

Decidia, assim, por ser covarde. Por negar a liberdade. Por negar.

O pouco garantido me acomodou Cecília. Foi freio para o além.

E nem mais chorava, estava seca. O último grito da minha tristeza de Cecília foram as palavras daquela e dessa folha amarelada.

 Julho/2009