quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Amor


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Um dia estava pulsando demais. A menina ressentia o sexo com uma aflição familiar. Havia um arrepio entre desejo e agonia, o que dava a ela uma ansiedade pantanosa: sorria com lágrimas da última noite. Talvez porque, de alguma forma, a submissão lhe acolhia. Relembrando os movimentos bruscos que lhe causaram dor, a menina se sentia objeto – de amor e desejo. Isso lhe proporcionava um prazer descritível: “antes ser aceita do que compreendida”, sentiu. Submeter-se ao mundo era a condição dolorosa de ser acolhida, o que, a princípio, era a sua prioridade. Valia a pena.
Ainda inquieta, a menina se encarregou a um banho. Sentindo que o sabonete a descascava, a sensação primeira foi de alívio. Esfregou para além do corpo com mais vontade e força, e acabou por se sangrar, experimentando um misto de libertação e pavor de si. O arrepio tornou com toda a sua contradição, e a vasta experiência de mulher insistiu em se rir do corpo destreinado e seco por medo de masturbação. O grito do gozo encenado ressoava no coração da menina que não mais se reconhecia como mulher livre. Que não mais se reconhecia como mulher. Que não mais se reconhecia.
Ao perceber que seu corpo havia sido escravizado também por seu próprio ideal de mulher que forçosamente se impôs, a menina se tocou com uma sinceridade inédita, descobrindo-se costurada. Não lhe cabendo o vestido com as medidas ideais de mulher livre, ela se permitiu alfinetar e moldar a própria pele. Vestido e corpo confundiam-se numa dor insuportável para agradar um mundo intolerante do qual a menina também fazia parte.  Menina e mundo se entranhavam estranhamente.
Aumentando ainda mais a temperatura da água, a menina se esfregou com ainda mais força, descosturando todos os seus pontos de cruz e sacrifício. Assim, desnuda de arquétipos e com a força das pupilas que insistem em encarar o sol do meio dia, começou a lamber suas feridas descascadas em carne viva. A dor de um parto. Finalmente sentiu, enojada, o sabor de si. Com sua identidade amargando entre os dentes, teve medo de ser frustrada e só. Antes não ser?
Ainda nua, mirou-se no espelho, surpreendendo-se com as marcas da farsa em seu corpo: as cicatrizes eram parte de uma verdade. A mulher acariciou suas feridas com respeito, reconhecendo-se sujeito – de amor e desejo.

Outubro/2011

2 comentários:

  1. "o alumbramento tem um tanto a ver com o inesperado", São olhos potenciados em vários ângulos, pra cima baixo esquerda ao lado, concepção e nome das cores...entretanto só acordamos ( infelizmentissimamente) dos dois que temos,quando isso lembramos.

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