terça-feira, 7 de agosto de 2012

Resenha do filme Albert Nobbs


 Meu nome é Albert. Não sei mais o que dizer. Venho me acostumando a não sistematizar meus processos, afinal o que importa é o produto. O que importa é não ser violada pelos homens ou pela fome.  Aprendi, em poucos anos, que servir me protege do ataque; para estar salvo, é preciso apenas aparar as curvas do corpo e do comportamento, de forma que estes estejam de acordo com algo que não compreendo, mas aceito. 

Desculpe, me sinto interrompida como um coito de mulher seca demais para a penetração. Meus vislumbres de frases parecem estar sendo sugados assim como ocorreu às minhas bochechas femininas. Talvez o mundo dos homens tenha me deixado enxuta demais. Hoje eu não consigo sorrir.  Aliás, consigo. Dia desses achei graça de um garçom com olho roxo. Talvez vingança, mas não importa. O que importa é não ser violada pelos homens ou pela fome.

Todos os dias me travisto do que esperam em mim e, embora um susto sereno ainda me assalte, me uso como espelho para que o monstro se reconheça na sua, agora minha, monstruosidade e, assim, ao menos me ignore. É doce a minha ilusão de felicidade ao ser ignorada. Me desculpem o açúcar do termo, a feminilidade vem me tentando a ponto de eu compreender a ilusão sem aceitá-la.

 Preciso de um parágrafo. Acho que houve, aqui, uma revira sem volta. As mulheres me cochicham: é preciso alarde para ser. É preciso vestido, colo, amor. É preciso um processo feminino diário. É preciso alarde.  A fome e os homens também nos violam com a indiferença. É preciso alarde.

Sem mais reparos nas curvas do corpo ou do comportamento, aprensento-lhes meus seios com toda a sua miséria, mas apresento-lhes meus seios.


Junho/2012