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Um dia estava pulsando demais. A
menina ressentia o sexo com uma aflição familiar. Havia um arrepio entre desejo
e agonia, o que dava a ela uma ansiedade pantanosa: sorria com lágrimas da
última noite. Talvez porque, de alguma forma, a submissão lhe acolhia.
Relembrando os movimentos bruscos que lhe causaram dor, a menina se sentia
objeto – de amor e desejo. Isso lhe proporcionava um prazer descritível: “antes
ser aceita do que compreendida”, sentiu. Submeter-se ao mundo era a condição
dolorosa de ser acolhida, o que, a princípio, era a sua prioridade. Valia a
pena.
Ainda inquieta, a menina se encarregou
a um banho. Sentindo que o sabonete a descascava, a sensação primeira foi de
alívio. Esfregou para além do corpo com mais vontade e força, e acabou por se sangrar,
experimentando um misto de libertação e pavor de si. O arrepio tornou com toda
a sua contradição, e a vasta experiência de mulher insistiu em se rir do corpo
destreinado e seco por medo de masturbação. O grito do gozo encenado ressoava
no coração da menina que não mais se reconhecia como mulher livre. Que não mais
se reconhecia como mulher. Que não mais se reconhecia.
Ao perceber que seu corpo havia
sido escravizado também por seu próprio ideal de mulher que forçosamente se
impôs, a menina se tocou com uma sinceridade inédita, descobrindo-se costurada.
Não lhe cabendo o vestido com as medidas ideais de mulher livre, ela se
permitiu alfinetar e moldar a própria pele. Vestido e corpo confundiam-se numa
dor insuportável para agradar um mundo intolerante do qual a menina também
fazia parte. Menina e mundo se
entranhavam estranhamente.
Aumentando ainda mais a
temperatura da água, a menina se esfregou com ainda mais força, descosturando todos
os seus pontos de cruz e sacrifício. Assim, desnuda de arquétipos e com a força
das pupilas que insistem em encarar o sol do meio dia, começou a lamber suas
feridas descascadas em carne viva. A dor de um parto. Finalmente sentiu,
enojada, o sabor de si. Com sua identidade amargando entre os dentes, teve medo
de ser frustrada e só. Antes não ser?
Ainda nua, mirou-se no espelho,
surpreendendo-se com as marcas da farsa em seu corpo: as cicatrizes eram parte
de uma verdade. A mulher acariciou suas feridas com respeito, reconhecendo-se
sujeito – de amor e desejo.
Outubro/2011
Outubro/2011
